Livros & Roteiros

No principio a terra era sem forma e vazia.

Meu primeiro livro foi escrito aos sete anos de idade. É uma história interessante: minha mãe não tinha muitos recursos financeiros para me dá tudo o que eu queria. Ainda bem, por isso aprendi a correr atrás e me tornei quem sou hoje. Eu entendia perfeitamente o "não posso comprar" e nem enchia o saco dela por isso, mas um belo dia me deparei com um livro de capa colorida fascinante e esperneei feito criança mimada.

- Eu quero, mãe, eu quero!

- Não tenho dinheiro, filha. Não dá.

Passei dias tentando imaginar o que tinha naquele livro, que história seria, como seriam os personagens, o desfecho... A ansiedade fez meu coração derreter, inicialmente, até decidir que não precisava daquele livro para ler uma boa história. Eu criaria a minha própria.

Comecei a escrever num velho caderninho de caligrafia que brigaria com o tempo para tê-lo de volta. Mas se perdeu numa das nossas mudanças.

Desde então, eu escrevo: poesias, músicas, contos, crônicas, roteiros e atualmente estou desenvolvendo dois livros e outros projetos que me manterão ocupada até os 100 anos de idade.

O Kerata é a minha primeria ficção, que será lançada em 2017 pela Novo Século, Editora que publica a Marvel aqui no Brasil. Já dá para imaginar o orgulho, né? O lançamento será na bienal do livro de São Paulo e estará à venda nas principais livrarias do país, como Cultura, Saraiva, Martins Fontes, Siciliano etc.

Sinopse:

Um neurótico obsessivo é vítima de um estranho desejo que o torna um dos assassinos mais procurados do mundo. Uma artista plástica, em busca de um insight criativo que mudará para sempre a sua carreira, não consegue controlar seus demônios e ver a sua vida se chocar com o obscuro mundo das drogas. Um famoso detetive, esmagado pela dor da perda, encontra, finalmente, a sua esperada vingança. Um transexual é obrigado a se prostituir para ter o corpo que tanto deseja. O filho de um pastor se submete a todos os processos de cura gay de sua igreja. Um sertanejo dá lições de bondade e aceitação e vê seu filho se transformar em um grande milionário depois de criar uma revolucionária start-up de tecnologia. Uma dona de casa é violentada pelo marido, que acredita ter direitos legais sobre o seu corpo.

Em o Kerata, vemos a história de todos esses personagens e mais alguns outros, subir ao palco da vida para uma dança perigosa que vai mexer com as suas emoções. Esteja preparado.

 

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Introdução do livro
 

O presente livro está longe de ser a versão primeva a qual eu havia pensado quando tive a ideia de escrevê-lo. As portas que bateram em minha cara e o constante preconceito foram primordiais para que ele evoluísse e se tornasse essa história que explora as patologias sociais e individuais com realismo tão artístico quanto uma pintura abstrata.

Estudei psicanálise durante alguns anos e, inclusive, pretendo fazer Mestrado e Doutorado em Psicologia, voltando-me às questões da cultura e como esta modela o ser humano. Meu estudo serviu para criar personagens consistentes, com personalidades bem construídas e enredos bem elaborados.

O Kerata também se apresenta como uma forma de denúncia social e individual. Ele pretende envolver suas emoções, te prender no enredo e se identificar com ele.

Ao final da leitura, se eu conseguir te fazer refletir e provocar mudanças em sua maneira de enxergar a vida, uau! Serei a mulher mais realizada deste mundo.

O Kerata fala de liberdade, de amor, de doença, de injustiça, de bondade, de generosidade, de amizade, mas principalmente, ele fala de desejo, das pulsões que nos tornam selvagens domesticados pela sociedade, numa negociação infinita sobre “quem sou”, “quem é o outro” e “como vivo em sociedade”.

Usei alguns fatos históricos para situar a narrativa dentro de um espaço de tempo. No entanto, não me prendo a estes acontecimentos históricos para narrar o Kerata. O enredo também não se prende a uma narrativa cronológica, fatos podem ocorrer simultaneamente em capítulos diferentes.


Palavras

Em meu vernáculo de palavras plagiadas, restaram-me algumas definições sobre as irrealidades ocultas.

Limitadas em seu significado, nunca serão a coisa em si, apenas significando significados. Sempre previsíveis e vazias de sentido, sendo apenas a descrição do inatingível em suas impalpáveis facetas.

O mundo é assim: um emaranhando de sentimentos corrompidos num engarrafamento de palavras quilométricas que sobem e descem conforme os picos da vida. A realidade é adquirida por verdades de indivíduos nobres em seus cavalos-brancos e castelos magníficos. O respaldo do glamour se sustenta no inexistente, pois não há princesas, nem reinos, nem contos-de-fada senão aquele que apenas significa, sem nada dizer, pois não alcançam o subjetivo.

Vai ver o abstrato é mesmo um sujeito tímido, sempre incompreendido; porém, incontestável. Pois o coelho sempre nos leva a abismos de mundos pequenos e grandes para apenas calcar nas dúvidas do "quem sou?" sem muito ligar para o impacto que se aproxima.

 

E assim tudo existe, coexiste, atinge, aflige, espalha, escorre, avança, espanta, assopra, desdobra, arranha, estranha, aguça, desnuda, forma, deforma, informa, nutre, desnutre, descreve, empenha, sonha, acorda, constrói, destrói, deseja, aspira, conspira, transgride, trapassa, transpira, inspira, acostuma, preserva, naufraga, ressalta, ensina, excita, goza, antecipa, arranca, sangra, desmancha, atropela, mente, desmente, inventa, consome, some, come, muda, planeja, asseia, esperneia, anseia, desmaia, toca, sente, vibra, transa, transa, transa, canta, chora, declama, machuca, importa, exporta, constata, apara, ampara, desampara, para, norteia, permeia, atrai, esvai, dissipa, supera, separa, alcança, avança, semeia, colhe, enxerga, cega, saboreia, envaidece, enlouquece e esquece, que, principalmente, acaba.

 

 
 
 

A menina e o tempo e os tempos de menina

Incrível como o mundo não para. As coisas mudam, as pessoas crescem, os móveis são trocados, as paredes ganham nova argamassa, o chão, que outrora abrigava marcas de uma infância sofrida, agora ganha um tracejo leve, mais elaborado, de uma sofisticação amena que levou para longe uma mãe vítima de um alcoólatra sem escrúpulos.

Debaixo deste pé de jambo que tantas vezes subi por achar que era o lugar mais alto e mais seguro do mundo, de onde eu observava o movimento da rua silenciosa, alheia aos gritos mudos vindos daquela casa, foi que mergulhei no tempo e trouxe lembranças distantes e dispersas que até desconfio se realmente existiram.

A cada passo adentro daquele lar que era meu e que agora é estranho a mim, como se não pertencesse mais a ele - e na verdade não pertenço -, foi que revivi cenários atemporais que mesclaram-se a uma realidade inexistente e uma menininha chorava solitária ao canto da parede,cheia de medos e incertezas por ser invadida por um estranho. No velho quintal, os desenhos refaziam-se na areia e a doce menininha sorria para mim. Quer brincar? Onde está sua mãe? Não conte a ninguém. Vou pegar você. Se gritar eu ...

A menina me pegou pela mão e me mostrou um grande cão que latia e balançava o rabo, feliz. Abri os braços para recebê-lo,mas ele lambeu a menininha e não a mim. Não pude tocá-lo, não mais. Uma voz ecoou agressiva e a

 

menininha correu. Corri com ela e juntas nos escondemos debaixo daquela cama de madeira que em instantes sumiu, revelando uma face raivosa.

Risos, cantigas, gritos, lágrimas, medos, tantos substantivos que fluem de mim e tão alheios a mim nesta casa que foi testemunha de tudo: de meus desejos, de meus devaneios, de meus segredos, de minhas juras, de meus sonhos, de minhas mudanças e inseguranças. Uma lágrima me escapa saudosa de um tempo que me fez e me inflamou com marcas profundas. Quer café?

Hoje sou visita e o tratamento é outro. Sou estranha. Pudera ser estranha do passado, mas ele está e mim, enraizado nas entranhas do meu ser que é pra eu não esquecer o brilho por trás deste doce olhar de menina. Onde ela está? Perdeu-se. Ficou presa no tempo, debaixo da cama que não mais existe. Se pudesse encontrá-la, levá-la-ia ao país das minhas maravilhas, no intercâmbio das ilusões reais do meu ser imaginário, no mundo de cores vivas, com muitas flores, amores, sabores, no mundo onde ela vive feliz, onde o tempo não a esticou porque não há tempo e ela brinca de amarelinha com seu pastor alemão no mesmo chão de areia colorida.

 

 
 
 

Orlando

Sendo tu vermelho da paixão
Sendo também vermelho escuridão
Sendo morte, sendo sangue
Sendo amor que tanto tanges
De quem mesmo tu te escondes,
Sem jamais reconhecer?

Vem, vem depressa, a crueldade dilacera
Nas avenidas se exasperam
Sobre amores que nunca serão.

Espelhos surreais
Reflexos inimigos
São só expectros sombrios
Vários de mim num mesmo sou
Quem sou? Quem és?

Amores surreais
Desejos proibidos
Pela lei, inadmissível!
Crueis comigo
Crueis contigo
Sendo cruel
A parte doce do amor.

Autoria: Juliana Duarte.


Cegueira

Vontade vem, apago
Sumo, aquieto, espalho
Ruas afora
Ventos sopranos
Escândalo!

Olhos invisíveis
Pedaço que ficou

Tesoura afiada, ideia cega, apega!
Nunca cortou.

Teatros do sorriso, amigo.
Pesadelos, seja réu

Acusado seja tu, desejo!
Seja negro, pálida doce escuridão.

Julga-me inteira
Condena-me o amor, vire dor

Espetáculo vazio, diz-me, o que restou?

Verdade seja dita.
Boca mente, estranha-mente entupida.

Fica, fica que eu vou.

 

Juliana Duarte


Sobre o vale

Máscaras caem
Noites sombrias
Parte de mim que foi
Sem partida


Venera a alma, amada!
Cumprimenta a morte
O vale está adiante, avante!

Não pode esperar.


Medos dilaceram
Prazer que engasgou

Parte minha ficou, espelho meu?

Reflexo teu, projeção
Luz espanta, escuridão
Sobre o vale, dançam
Sendo dois coisa só
Brinque comigo

Calafrio.

 

Juliana Duarte


Tempo, que tempo

Tempos violentos
Intensos.
Me atento:
Há tempo para o amor?

O tempo é agora, afora
Embora tudo seja para ser como for.

Quem sabe à tarde, ela sabe...
Ela sabe que é amor.

É cedo para isso?
Que risco!
Me arrisco?

Respiro e vou.

O que diz o tempo?
Não é tempo:

Primeiro é olhar, conversar.
Segundo é beijar, paquerar.
Terceiro? Namorar...

Casar?! Mas já?!
Que tempo! Não é tempo.

Mas quem manda no tempo?
No meu tempo?

Se ando solta na rua
Se minha alma inteira, desnuda
E diz que de certo sou tua

É cedo?
Segredo: não tenho medo.
Sou diferente, minha gente
Com ânsia de viver.

Até posso esperar.
Mas nunca pra amar.

Juliana Duarte


Quereres

Eu quero os gestos mais simples
Os beijos mais quentes
Os abraços mais fogosos

Quero o olhar mais profundo
O desejo mais ousado
A espera mais saudosa

Quero os cânticos mais melosos 
O veneno mais suave 
A boca mais saborosa

Quero os risos mais alegres 
Os gemidos mais vívidos
As palavras mais desconexas

Quero o sorriso mais amarelo 
A pele mais ardente
O néctar mais límpido 

Quero o coração mais entregue
As promessas mais insanas 
As verdades mais intensas

Quero o gozo mais delirante 
A paixão mais vibrante
As versões mais impressionantes

Quero o amor mais puro
A vida mais singela
E uma mundo onde tudo que é meu é dela.

Juliana Duarte